Como uma das maiores economias do mundo tem uma população com fome?
Isso é realmente cruel. Quem poderia imaginar que uma população muito obesa também poderia estar desnutrida?
Aqui no Brasil temos a cultura de dizer que "criança gordinha é saudável porque come bem". Porém, os desertos alimentares mostram que não é bem assim. O que as pessoas comem hoje muitas vezes não é alimento, é veneno. Não mata na hora, mas encurta a vida e acaba com a saúde.
Não sou hipócrita, eu também como fast-food. Mas é uma vez por mês e olhe lá, só para comemorar algo com os amigos e a família na rua.
Agora, fazer desse tipo de comida o alimento do dia a dia é loucura! E a indústria estimula isso demais.
Tem uma série de comédia bem interessante que mostra a rotina exagerada de uma família pobre no interior dos EUA. Chama-se "The Middle". Em toda cena de refeição, eles só comem fast-food. Eu, que sou meio natureba, fico até agoniada assistindo! Mas existe uma crítica disfarçada ali.
A qualidade da alimentação deles é péssima porque a família não tem dinheiro, cultura ou conhecimento para fazer boas escolhas. Além disso, a mãe está sempre cansada demais para cozinhar. O resultado é que as três principais refeições são sempre ultraprocessadas, e o jantar vem direto do saquinho do fast-food.
A série fez essa crítica de forma bem discreta, mas ela fica bem visível para quem se preocupa com a alimentação.
O Brasil ainda é mais tranquilo nesse ponto, porque o fast-food não é tão barato e a comida de verdade tem um preço em conta. Se compramos apenas produtos naturais, mesmo no supermercado, a nossa feira ainda sai acessível. O que encarece mesmo são os ultraprocessados e o que não é essencial.
Porém, já vi reportagens mostrando que esse "fenômeno das calorias vazias" está chegando às comunidades mais pobres. Um pacote de biscoito e um refrigerante na versão econômica são sempre baratinhos. As pessoas compram e comem isso com cada vez mais frequência.
Aí temos a falsa sensação de que ninguém mais passa fome porque as pessoas estão gordinhas. Mas a verdade é que elas estão comendo coisas que não alimentam.
Lembro que, nos anos 90, era comum ver pessoas esqueléticas nas ruas do Brasil. A gente se chocava porque dava para ver de cara a situação de extrema vulnerabilidade.
Hoje precisamos olhar mais de perto, porque é difícil identificar a vulnerabilidade alimentar por causa dessa fome silenciosa.
A partir dessa análise, precisamos evoluir para políticas públicas reais que incentivem a comida de verdade. O governo atual pensa sobre isso, e é necessário continuar pensando.
Não podemos nos render a essa indústria mortal. E quando digo "indústria mortal", não estou exagerando. É muito preocupante mesmo. Normalizar o consumo dessas coisas que a indústria inventa destrói o nosso bem mais precioso, que dinheiro nenhum compra: a nossa saúde. Porém, infelizmente, a nossa doença a indústria vende aos montes... e custa bem baratinho.
Para entender mais sobre o assunto:
Bibliografia
Sistemas Alimentares, Fome e Insegurança Alimentar e Nutricional no Brasil
Autores: Rosana Salles-Costa, Aline Alves Ferreira, Paulo Castro Junior e Luciene Burlandy
Por que ler: Editado pela Editora Fiocruz, o livro explica perfeitamente este paradoxo: como os sistemas alimentares globalizados geram desigualdade, fazendo com que a fome, a desnutrição e a obesidade andem juntas no Brasil.
Oito Lições Sobre as Cidades e a Segurança Alimentar e Nutricional: Entre a Teoria e a Prática
Autora: Kamila Guimarães Schneider
Por que ler: Este livro aborda diretamente o desafio de levar comida saudável para dentro dos grandes centros urbanos e das periferias. É o estudo perfeito sobre como surgem as barreiras físicas que criam os "desertos alimentares" nas cidades brasileiras.
Uma Dieta de Histórias: O Que Se Vende, O Que Se Come
Autora: Paula Johns (ACT Promoção da Saúde)
Por que ler: Embora dialogue de perto com documentários de mesmo nome, os materiais e estudos da organização mostram o peso do lobby das grandes marcas e o bombardeio da publicidade infantil no incentivo ao consumo dos ultraprocessados.
🎬 Documentários Recomendados
Comida de Mentira (2026)
Onde assistir: Lançado recentemente com a narração de Denise Fraga e participações de Bela Gil e Rita Von Hunty.
O tema: Revela com exclusividade como a bilionária engrenagem da indústria de ultraprocessados no Brasil atua para reprogramar nossos hábitos de consumo a qualquer custo, destruindo a saúde pública nacional.
Big Food: O Poder das Indústrias de Ultraprocessados (2022)
Onde assistir: Disponível gratuitamente no site do projeto Alimentando Políticas.
O tema: Mostra que o "governo atual precisar agir". O filme escancara como as grandes corporações de refrigerantes e salgadinhos tentam bloquear e impedir a criação de leis e políticas públicas saudáveis no Brasil.
Antes do Prato (2024)
Onde assistir: Produzido pelo Greenpeace Brasil, disponível no YouTube.
O tema: Traz a solução prática ao focar na agroecologia, mostrando como o combate à fome silenciosa e a preservação da saúde dependem diretamente de dar voz e apoio às periferias para a produção de comida de verdade.
Histórias da Fome no Brasil (2017)
Onde assistir: Disponível no YouTube e em plataformas de streaming independentes.
O tema: Para entender e traçar a linha do tempo sobre o tema da fome no Brasil. Ele mostra como o país saiu do mapa da fome clássico (as pessoas esquálidas nas ruas) e começou a enfrentar a nova dinâmica de insegurança alimentar.

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